No mundo contemporâneo – talvez
também fossem assim em tempos primevos – existe muito pouca convergência sobre
a questão do sofrimento humano. A única coisa que parece uma certeza é admitir,
que por um motivo ou outro, o ser humano sofre. E esse sofrimento vai muito
além da dor física, das mazelas corporais, do campo biológico, embora possa
manifestar-se por qualquer uma dessas vias.
Pode-se dizer que existe, por parte
da “ciência médica”, impregnada de um saber que transita entre a possibilidade
de ajudar e o pavor da própria ignorância, uma tentativa permanente de trazer
para o campo das patologias, onde reina soberana, todas as formas de sofrer. Penso
nos artistas e poetas que, como tão bem expressa o apaixonado Vinicius de
Moraes, sempre se fizeram valer de seus lamentos em forma de canção[1],
para dar vida às suas dores, encantando o mundo com seus prantos, e concedendo a
si próprios um lugar de significância e dignidade para sua dor. Que triste
seria se os “heróis da medicina moderna” obtivessem sucesso nessa empreitada de
alguns de seus adeptos, de “eliminar o sofrimento humano”.
Mas passando das divergências ao
consenso, não deve ser motivo de estranheza para ninguém, que o luto apareça,
para quase qualquer pessoa, como a dor mais aguda, mais cortante, um rasgo na
vida de quem fica, a cicatriz profunda pela ausência de quem se ama.
A morte, quando aparece, é sempre “de
repente”. Ela sempre assusta os que estão próximos, questiona, marca de forma
indelével as suas vidas, que experimentam um prenúncio de seu próprio
inevitável fim. Parte da ilusão egóica que sustenta a soberba possível do ser
de fala é perdida, destruída, esmagada brutalmente pela interrupção da jornada daquele
que, até então, partilhava a mesma estrada. Agora, naquela figura, naquela
pessoa, não há mais luz, não há mais palavras, não há mais ações... silêncio e
vazio são a única resposta. A morte só pode ser percebida pelo seu negativo, ou
seja, pela ausência de quem se foi.
Buscam-se as lembranças, tentativas são feitas de apegar-se a
elas. Um apelo oco por algo que possa reverter o que não tem reparação. Do choque
e desespero, restarão a tristeza e a saudade. E aquele vazio sempre o será.
Qual o caminho possível para uma
psicanálise diante dessa experiência tão crua e brutal? A psicanálise tem, como
um dos seus princípios mais elementares e essenciais, o compromisso radical e
inequívoco de dar lugar. O luto na psicanálise pode – e deve – ser vivido: o
sofrimento é ouvido, “acolhido”, não com “um tapa nas costas”, ou uma tentativa
de tamponar o que não pode ser escondido, mas com a dignidade de oferecer a
palavra para que a pessoa fale de si, da sua dor, da sua experiência, das suas
lembranças. E fale tudo o que for possível e preciso – ainda que impreciso –
para que se possa viver com isso, “fazer com isso”.
A experiência psicanalítica passa
pela inscrição de um lugar, de um campo, de uma história de um propósito, a
construção de um ser de desejo. Ela inclui o que outras disciplinas querem
deixar de fora, aceita e elege à condição de verdade aquilo que alguém fala de
si. Para a psicanálise, uma pessoa é aquilo que diz ser, sem reticências.
Esse é o espaço oferecido e
sustentado pelo praticante de psicanálise no dispositivo psicanalítico. Esse é
um convite a todos que sofrem para que façam uso da palavra pela via da
psicanálise. Um convite para que as pessoas se permitam a oportunidade de serem
ouvidas em suas verdades, e possam construir uma vida sem falsas promessas ou
milagres passageiros. Um convite à construção de novas possibilidades para
velhos dilemas.
(1) Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não
Vinicius de Moraes, “Samba da Benção”