A experiência humana, em todas as suas peculiaridades, envolve elementos e vivências que são tudo menos óbvias. Quando perguntamos se uma pessoa conhece a própria imagem, pensando nessa como algo objetivo, claramente perceptível e de contornos evidentes, a resposta não seria menos direta do que um “é claro que sim”. Mas, como gostam de dizer atualmente, no mundo das frases e abreviações, “só que não” ou “sqn”, para soar contemporâneo. Estou insinuando com isso que uma pessoa não sabe de sua aparência? Não, eu estou afirmando com todas as letras que a totalidade das pessoas não conhecem a própria imagem, no sentido objetivo que essa afirmação possa referir.
Entramos em um certo campo que chamei acima de peculiaridades da experiência humana, onde as obviedades perdem lugar para os caminhos da psique e as intrincadas vielas de uma cidade antiga e recortada de pequenos caminhos que se encontram e comunicam para muito além do que uma “foto aérea” poderia exibir.
E o que uma pessoa vê quando se olha no espelho? Para isso eu vou evocar aqui uma experiência bastante simples e comum, com a qual as pessoas podem se identificar facilmente. Alguém vai passar férias na praia. Digamos que essa pessoa passe 10 dias de férias de verão em um local ensolarado, com muita atividade ao ar livre e exposição ao sol intenso. Essa pessoa vai, certamente, se bronzear bastante ao longo desse período, e voltar para casa com uma aparência bem distinta daquela que tinha antes da viagem. Ainda assim, tendo se visto durante todo o período da viagem em espelhos, fotos, reflexos, é perfeitamente possível que se sinta impactada ao olhar-se no espelho de casa quando chegar, ficando surpresa com o quanto está bronzeada. É como se aquele espelho do quarto, do banheiro, da sala, registrasse uma imagem de si que corresponde a um certo lugar psíquico ligado a uma visão parcial e fixa, estado que não é sobreposto aos eventos que se seguem, ou seja, à exposição ao sol naquele período de férias. Nesse caso, o contraste entre a imagem que aquele espelho apresentava antes só aparece quando confrontada com uma nova imagem naquele mesmo espelho, agora trazendo uma visão diferente daquela que estava antes ali gravada. Começamos a perceber, a partir de um exemplo desses, que não temos uma imagem objetiva, oriunda de uma visão de nós mesmos que os muitos espelhos revelam, mas percepções parciais, de certos lugares no tempo e no espaço, que nos apresentam recortes de nós mesmos, com os quais nos fixamos e nos organizamos como um ser corporal, como um todo unificado que aparece diante dos outros.
Mas a coisa não termina, ou antes, não começa aí. Quando iniciamos nossa jornada nesse mundo, ainda sem nenhum entendimento de nós mesmos, como bebês que sentem e experimentam sensações que não entendem e não controlam, vivemos essa avalanche de experiências que inundam todos os sentidos e possibilidades de interpretação e entendimento, de forma aleatória, desconexa e inquietante. O bebê diante disso tudo não sabe distinguir se uma dor é fruto de uma mão que aperta o seu pé, ou de um desconforto que vem do interior do seu corpo. Mais ainda, um bebê não conhece os limites do seu corpo, o dentro e o fora, a distinção entre ele e o mundo. Ao longo dessa jornada inicial tão desafiadora vai criando percepções, intuindo algumas relações de causa e efeito, sem contudo saber exatamente o que tudo aquilo significa. Chora quando sente um incômodo, que não distingue logicamente, mas que experimenta em todo seu dissabor, e com algum tempo chorando, esse incômodo passa. Com a repetição dessa sequência de incômodo, choro e alívio, passa a chorar para “fazer passar” qualquer incômodo. O bebê não faz ideia de que seu choro provoca o cuidado de um outro, que nem sequer sabe existir, e esse outro vai buscar o que possa estar incomodando o bebê que chora e encontrar formas de aliviar esse incômodo.
A intenção aqui não é fazer um trajeto a respeito dessa jornada da vida, assunto estudado de forma profunda e detalhada a que se pode ter acesso com grande facilidade e qualidade, que não posso entregar nesse pequeno texto, mas ampliar esse assunto como um prelúdio para chegar um pouco mais próximo do que podemos entender como concepção de imagem de si.
Sendo mais direto, é ainda nesse contexto de grande desorientação, que o bebê, antes mesmo da formação de um “Eu”, e como parte integrante desse processo, começa a ver no espelho uma correspondência com seus movimentos, sua experiência motora, para ser mais preciso, e vai concebendo uma imagem de si como aquela visão que o espelho apresenta. Aquela imagem cria um contorno claro, integrado e bem acabado para uma experiência corporal fragmentada, confusa e nada harmônica. Aquela imagem dá forma, emoldura um corpo que a experiência sensorial e motora não permite integrar. Em outras palavras, o que percebemos como imagem corporal não vem a partir da experiência sensorial, mas de uma imagem “externa” que conta de um “Eu” ainda em construção.
Esse “Eu” vai passar por processos ainda muito intensos ligados à relação com o outro. A relação de amor e de atenção que o olhar do outro transmite, essenciais para a experiência desse “animal eu” que faz concessões em seus instintos de sobrevivência e procriação em nome de uma vida em grupo, que cede da lógica estrita da biologia pela prevalência da cultura será determinante em todos os aspectos de sua experiência.
Quando uma pessoa se vê, olha para si, vê um espelho, ela não vê apenas com os olhos. Ela se vê através de afetos, de expectativas sobre seu lugar como objeto de amor do outro. Esse outro que olhou e cuidou, que instaurou essa experiência de amor e cuidado como fonte de prazer e realizações, esse é o olhar que a imagem “persegue” e, por motivos óbvios, jamais alcança. Quando uma pessoa persegue suas expectativas de “como deve parecer”, o seu “ideal”, busca modelos de todos os tipos e padrões veiculados ou não em códigos e condutas culturais e sociais, mas o que nunca vai encontrar é essa captura imaginada (idealizada) do olhar do outro, essa satisfação do outro que ela não completa e não pode preencher. O outro não é passível de realização e plenitude por nada que a idealização desse “Eu” possa buscar.
Podemos recorrer a uma outra situação, que embora mais simples, ilustra com clareza o atravessamento das possíveis percepções objetivas pelo campo dos afetos. É fácil pensar em como vimos inicialmente uma pessoa por quem venhamos a nos interessar e com quem criamos algum tipo de relação. Passado algum tempo, não conseguimos mais ter uma imagem dessa pessoa que seja imparcial ou objetiva. É possível pensar em como olhamos para essa pessoa inicialmente, e tentar recuperar nossas impressões à época. Mas essa imagem foi criando outros contornos na medida que uma relação afetiva foi sendo construída. Com a própria imagem isso se dá de forma muito mais radical, e tem uma condição estruturante da experiência desse “Eu”. Nos vemos conforme idealizações que não se apresentam com legendas, mas que alteram qualquer possibilidade de se relacionar com a própria imagem de forma clara e objetiva.
E o que fazer disso tudo? Aí encontramos um verdadeiro cardápio de promessas de realização, de soluções cosméticas, de alterações corporais e digitais, de perfis e apresentações, de ofertas de produção de uma imagem que, sendo idealizada, nunca pode ser atingida. É fácil perder-se em tantas possibilidades, procedimentos, filtros e disfarces que nunca acabam, e entrar em uma rota fadada à frustração e tristeza.
O importante é entender que ter atenção e cuidado com a própria imagem, buscar formas de se apresentar que atendam a algum tipo de expectativa vai fazer parte da experiência humana, e que isso não é um problema “per se”. Se podemos falar em problemas, só é possível inferí-los quando uma determinada busca vira o único caminho, a única possibilidade, e a vida fica reduzida a uma tentativa de atender a uma expectativa que não é possível atingir. É triste que uma pessoa não possa desfrutar o prazer de entrar no mar porque seu abdômen não está no “shape” que deveria. É empobrecida a vida de uma pessoa que não pode celebrar um momento de conquista porque as calorias daquele dia já foram contabilizadas.
A vida é uma experiência muito ampla e de muitas faces, e os desafios por poder desfrutar da complexidade do exercício de ser requerem muita atenção e cuidado. Não se trata de normatizar, de julgar escolhas, de definir padrões de qualquer espécie, mas de perseguir a maior liberdade possível diante de toda a complexidade que a condição humana implica.
Alexandre Pastore – 12/09/2021