Ao trazer a esse ensaio uma
reflexão sobre o saber, não vejo outro ponto que possa me servir de início, e
até de propósito, senão Sócrates, filósofo ateniense nascido em 469 A.C., a
quem se atribui a idéia de alguém que “sabe que nada sabe”. Essa reflexão sobre
as possibilidades infinitas do pensamento, sobre as infindáveis perguntas a
perseguir incontáveis e inencontráveis respostas é uma herança do pensamento
socrático, que ironicamente jamais escreveu uma obra, não deixou um legado
documental, como seus sucessores e seu principal aluno, Platão. Sabe-se de
Sócrates o que foi dito dele por seus alunos. Sabe-se também que era, conforme
descrito por seus alunos, um mestre que não queria seguidores. É possível que a
conjunção de sua rejeição a um suposto domínio do saber, somado à tradição da
transmissão oral do pensamento então reinante, tenham se juntado para impedir
que tenhamos qualquer registro direto de seus pensamentos, que não conhecemos senão
por intermédio dos que beberam “in loco” da fonte de suas reflexões, de seus
discursos... seus alunos! Seguidores de um mestre que não queria ser seguido.
E que motivos colocam essa
“rejeição” ao saber, à resposta afirmativa, como ponto de partida e, como
d’escrevi acima, como um propósito em si para a minha própria reflexão aqui expressa?
Voltamos ao nosso presente que nomeamos, do alto de nossa pretensão, como a era
do conhecimento. Acreditamos ter controle sobre quase tudo, e perseguimos
alívio para nossa angústia de existir no vasto conhecimento acumulado pela humanidade:
nos super computadores, na engenharia genética, nos satélites que orbitam e
tornam nosso planeta uma fotografia conhecida em nossas mentes e visitáveis em
nossos computadores pessoais. Google Earth, Facebook, cirurgias à distância,
medicamentos “infalíveis”, edifícios à prova de terremotos, tsunamis, furacões.
Que mundo fascinante e quanta soberba! Pois o mais poderoso, o “invencível
entre todos” pode borrar suas calças se não houver um banheiro próximo em um
momento de aperto! É incrível como o mundo se espanta quando um gênio como o
Sr. Steve Jobs perece de forma rápida e implacável, diante de uma doença que há
décadas põe fim à vida de milhões de seres humanos. É como se algo se rompesse
na ordem das coisas: um homem tão inteligente, poderoso, rico e capaz não deve
morrer... Parecemos viver à sombra de uma ilusão tão simples e sem sentido
quanto a possibilidade de se eternizar, ao menos para os ícones do mundo
moderno, que embalam nossos sonhos como símbolos de um paraíso na terra.
Tentamos erradicar males que não são senão a imagem refletida da essência do
saber-se, pois o horror nos aflige soturnamente tanto, e pelas mesmas questões
que afligiam os filósofos na época de Sócrates: quem somos, de onde viemos,
para onde vamos, o que vem antes da vida e o que se segue a ela. Impregnados
pelo conhecimento tentamos nos esquivar das dores de existir.
Mas devo recuar diante da
tentação de me perder em meus próprios pensamentos, esquecendo o propósito e a
disciplina a partir da qual proponho minhas colocações: a psicanálise. Há mais
de 100 anos, o Sr. Sigmund Freud propôs uma maneira de dar lugar à dor de
existir. Ele não tentou rejeitar, ele não “terapeutizou” o sofrimento, ele não
duvidou de seus pacientes, ele não tratou, como se fazia, à margem do convívio
social àqueles que buscavam seus cuidados onde o discurso médico os havia
abandonado.
E o que vemos hoje, mais de 100
anos depois dessa fase inaugural de uma possibilidade de ouvir uma pessoa e
aceitar sua singularidade? Um número crescente de “doenças psiquiátricas” e uma
impressionante abundância de medicamentos para cada uma dessas “doenças”. Outro
dia eu ouvi de um amigo que ele “É” um bipolar tipo II... que diabos será isso?
E como é possível dar um diagnóstico como um rótulo definitivo: é bipolar, é
depressivo, é... uma pessoa tem sua identidade definida por um diagnóstico? Lembro
de um médico que eu respeitei muito, cujo cuidado com o paciente sempre foi a
base e o fim de seu trabalho dizendo, há uns 30 e tantos anos, que os médicos
não conheciam mais seus pacientes, e que não sabiam examiná-los, porque o
atalho dos exames era um caminho muito mais fácil a ser trilhado. E não havia então
os exames de imagem modernos, as ressonâncias e tomografias, panacéias da
prática médica contemporânea. É claro que o uso das facilidades e a
possibilidade de abrangência da prática médica bem equipada são benefícios
inegáveis, mas há momentos em que, literalmente, esquece-se do paciente. Ouvi
certo dia, de um médico conhecido meu, a seguinte preciosidade: lidar com
paciente “enche o saco!”. É bem certo que deve se tratar de uma absurda
exceção, ou assim eu quero crer. É também verdade que conheço médicos cujo
compromisso com a saúde e o bem estar de seus pacientes são inquestionáveis, e
já tive a oportunidade de entregar aos cuidados de profissionais absolutamente
sérios e comprometidos a vida de pessoas muito amadas, sem jamais ter motivos
para qualquer fala que não fosse elogiosa e agradecida. Mas meu questionamento,
como deve indicar a digressão que me serviu de início para essa jornada é
dirigido a esse saber moderno que ultrapassa os limites da coerência e, ao
virar arrogância, perde todo seu brilho e sua valia.
Aqui deixo de lado a filosofia e
a “ordem médica” para retomar e dar foco à perspectiva apresentada, há mais de
100 anos, insisto em dizer, pela psicanálise. Ela começa com uma proposição tão
simples e óbvia que chega a parecer ingênua: “diga tudo o que lhe vier à
mente”. É o praticante de psicanálise que, diante de seu analisante, confere à
sua palavra o estatuto de verdade! A sua própria verdade, a sua história, a sua
singularidade, aos seus recursos (inclusive os sintomáticos) e a uma via
própria de elaboração e percurso. O que é dito por um analisante é!! Isso não é
nem simples, nem ingênuo e representa um salto às possibilidades do ser que se
apresenta diante de um praticante de psicanálise. O praticante de psicanálise
está, por princípio, destituído de respostas, de saberes acabados e enganosos,
e suporta, junto com seu analisante, a angústia de buscar seus próprios
recursos, suas únicas e indissociáveis questões e suas respostas singulares,
enriquecedoras, e inexoravelmente limitadas. Traduzir essas idéias é dizer que
não adianta mostrar a uma pessoa que sofre de anorexia a sua própria imagem em
fotos ou espelhos... é saber que ao se ver gorda, isso é tão verdade quanto
qualquer obra da engenharia. É entender que um toxicômano SABE que vai morrer
pelo uso indiscriminado de drogas ou álcool, e entender que essa foi a via que
ele produziu para responder a angústias que nem foi possível nomear. É dar
lugar à verdade psíquica, a única que vale para um sujeito único e singular, e à
qual só se pode ter acesso e meios de mobilização e elaboração psíquica ao
aceitar que ele é o que diz ser! O resto é pasteurização, é tentar erguer uma
taça onde ela não está... não tem efeito!
Essa promessa, que tantas vezes
parece vaga, de um processo psicanalítico, é um caminho extenso, rico, por
muitas vezes difícil, mas próprio. Uma jornada a ser sustentada para que alguém
possa ouvir seus próprios clamores, seus medos, seus desejos, suas proibições,
conceber e revisitar seus contornos. Sem mágicas, sem prazos, sem falsas
promessas, sem vida eterna.
Tome a palavra. A palavra é sua!