segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O outro no espelho - adendo

Quando escrevi o texto anterior, que chamei de "O outro no espelho", tive algumas surpresas muito interessantes. A primeira delas foi o fato de ter sido o texto desse blog que mais provocou reações, comentários, e pareceu atrair a atenção de mais participantes. A surpresa decorrente desse fato não é outra senão a complexidade do conteúdo que procurei evocar, que sempre traz muita controvérsia. A segunda surpresa foi decorrente das observações de colegas, que não entraram na raiz do assunto conforme a minha suposição inicial.

Dessa maneira, sinto-me motivado a dar um passo adiante no assunto da imagem corporal, segundo teorizada por Jacques Lacan. E já começo por dizer que todo o cenário de uma experiência pessoal não teve outro motivo que não o de dar lugar a um pensamento fundamental nos estudos de Lacan sobre o processo de constituição do sujeito.

Vou buscar marcar um ponto, que julgo de essencial reforço, dadas as observações que me foram feitas a respeito desse pequeno relato de uma experiência de "estranheza" com minha própria imagem. Seria um empobrecimento - ou mesmo uma ofensa - à teoria do "mestre francês" tentar replicar sua enorme e complexa contribuição teórica, e abandono essa via de saída, por motivos óbvios. Quem quiser estudar Lacan - ou qualquer outro autor de psicanálise, a começar por Freud - com mais profundidade, não vai fazê-lo por intermédio do meu modesto blog, no qual proponho apenas um espaço para reflexão e debate de um assunto tão rico e fascinante quanto a abordagem analítica do "ser de fala". Ainda assim, como "levantei a lebre", me julgo na obrigação de esclarecer algo de seu "trajeto".

O esclarecimento que cabe sobre o texto em referência é um só: quando Lacan escreve o "Estádio do espelho como formador da função do eu" (Lacan, J., "Escritos", pág.96 na versão brasileira da Editora Zahar), Lacan refere-se a um momento de fundamental importância na concepção subjetiva e na dissociação entre o corpo experimentado e o corpo "imagem". Ou seja, o bebê, que naquele momento de sua vida, experimenta uma sensação de corpo fragmentada, confusa, descoordenada, consegue verificar e perceber sua imagem projetada no espelho. Ele vê um corpo integrado e "resolvido", enquanto experimenta um corpo difuso e inacabado. Essa marca permanece como um divisor definitivo e permanente entre a experiência de corpo e a imagem corporal. Sendo ainda mais claro e objetivo, não faz parte da experiência humana, ter um conhecimento do seu "corpo real", ou de como ele é visto pelos outros.

Sei o quanto o assunto parece estranho e soa pouco crível para aqueles que não estão habituados ao estudo da teoria psicanalítica, o que me causou a surpresa pelo número de comentários sobre esse texto. Ciente de que esse adendo deve produzir um debate mais discordante, presto esse esclarecimento na esperança de continuar promovendo o assunto e as opiniões, críticas e o que vier daqueles que estiverem interessados em se engajar nesse "bate-papo" psicanalítico.

Nenhum comentário:

Postar um comentário