quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O outro no espelho

Nesse final de semana prolongado por um feriado (que consegui "emendar") na terça-feira, fui com minha esposa para a casa dela na praia, algo que não fazíamos há vários meses.

Nesse período mais recente, tenho retomado, gradativamente, uma certa rotina de atividades físicas, que tinha sido interrompida por mais de um ano em função de uma hérnia de disco, que estava me deixando enlouquecido de tanta e tão permanente dor.

Recentemente, há coisa de dois ou três meses, recebi a recomendação de uma fisioterapeuta, e comecei um trabalho de recuperação com ela. Tenho que dizer que, desde a primeira consulta, ela falava com tranquilidade em eliminar a dor: para quem estava com dor 24 horas por dia, 7 dias por semana, por um período que já somava uns 16 meses, aquilo era música da melhor qualidade para os meus ouvidos que, esperançosos, queriam acreditar naquela simplicidade, na segurança que ela demonstrava nas palavras e na avaliação física, conforme ia "dissecando" meu problema para definir a forma de trabalhar que iríamos adotar. Depois de duas sessões, eu já sentia algum alívio, e em menos de dois meses chegou um dia em que eu me vi completamente sem dor! Parecia um milagre! Eu nem queria contar pra ninguém, com medo de que o "encanto" passasse.... mas não passou! E, orientado sobre a postura, mantendo a disciplina dos exercícios e duas sessões semanais de fisioterapia, tenho me lançado a velhos desafios, voltando à esteira, à natação, duas horas semanais de musculação, uma aula de pilates - que também contribui muito para a manutenção da postura e fortalecimento da musculatura que equilibra a base da coluna, onde está localizada a minha hérnia.

Você que me acompanhou até aqui deve estar pensando: que relação essa história toda tem, afinal, com a psicanálise que, até onde consta, é o tema desse blog?

Pois bem, voltemos à praia: da última vez em que eu estive lá, eu estava sob o efeito de corticóides, o que me fazia parecer mais inchado do que um pacu! - não pensem que a psicanálise se fará por rimas.... Além de inchado, eu estava por mais de um ano sem praticar nenhuma atividade física ou esportiva, portanto meu corpo estava flácido, com uma camada considerável de gordura bem espalhada por meus 190 cm de altura, conferindo uma forma - ou falta dela - que eu acho que nunca tive em meus 45 anos de vida (destaque para o ACHO, por motivos que se seguirão em minha explicação). E a psicanálise?

A psicanálise chegou no exato momento em que entrei na casa da praia, tirei a camisa - estava calor, apesar da chuva - e fui ao banheiro. Quando acendi a luz e olhei para o espelho vi uma outra pessoa, que não era quem eu tinha visto da última vez em que fui à praia. O que tinha se passado com aquela figura, agora tão diferente?

Vejam bem que estamos falando de respostas óbvias: um ano e pouco de total sedentarismo seguidos de um cuidado (ainda não mencionado) com a minha dieta e com a retomada de uma rotina de atividades físicas / esportivas. Qualquer um sabe que isso deve promover uma mudança no percentual de gordura corporal, na quantidade de "massa magra", etc. Mas o relevante, nesse caso, é que eu tinha me visto TODOS OS DIAS  no espelho da minha casa durante esse processo, e não seria capaz de apontar qualquer mudança na minha aparência física! Contudo, a imagem daquele cara, fixada na minha memória, naquele espelho, há uns 4 meses e muitas horas de esforço antes eram incrivelmente contrastantes com o que eu podia observar naquele exato momento. E o espelho de casa, que horas antes me mostrara EXATAMENTE a mesma imagem que eu via ali, mas havia mostrado todas as etapas do processo, NÃO ME PROPORCIONAVA O CONTRASTE!

O ponto em questão é que, como sabemos, temos a nosso respeito, uma imagem EXTERNA, que começa no "O Estádio do Espelho como formador da função do eu" (Lacan, J, "Escritos"), e nos acompanha sempre como uma imagem que associamos a nós, mas que DESCONHECEMOS senão como UMA PROJEÇÃO daquilo que somos enquanto corpo físico.

A mudança de espelho produziu o contraste porque lá na praia, a última vez em que eu havia visto O QUE CHAMO DE MEU CORPO, ele tinha outra forma, outra distribuição de massas. Eu não poderia notar isso no espelho em que me vejo diariamente, o que confirma o quanto a imagem que carregamos de nós mesmos é parcial e externa e sempre equivocada, fragmentada. Ao chegar a outro lugar, onde eu havia visto meu corpo em outro momento, não conseguia reconhecer aquela imagem, e me espantei com uma forma muito diferente da anterior, QUE NÃO HAVIA SIDO AFETADA, DE FORMA ALGUMA, pelas imagens diárias que tenho de mim mesmo em minha casa!

Essa experiência impressionante é tão real quanto o nosso desconhecimento sobre nosso corpo, que permanece como uma "imago" cristalizada de um ser que vimos projetado em algum tipo de espelho, em algum momento. E as mudanças pelas quais esse corpo passa NÃO TÊM UM REGISTRO PSÍQUICO!

E não estou falando nada estranho, quando pensamos nas pessoas que perguntam: "que idade você acha que eu tenho?", sentindo-se jovens por causa de um cabelo pintado quando sua pele parece um maracujá!, ou quando vemos um homem muito gordo apontando para outro e dizendo: "minha barriga não é daquele tamanho, é?" e nós vemos que, na verdade, é muito maior!

Fica muito mais fácil entender as situações mais extremas dos distúrbios de auto-imagem, as anorexias, e outras distorções dos tempos modernos, como as chamadas "vigorexias" e outras formas de reação a uma imagem distorcida de si próprio. Afinal, NINGUÉM TEM UM REGISTRO PSÍQUICO FIDEDIGNO DE SEU PRÓPRIO CORPO, ou ninguém sabe exatamente como é.

Voltaremos a esse assunto!

7 comentários:

  1. Gostei muito do enfoque! Parabéns, além de ter um dom especial para escrever creio que se tornou um excelente psicanalista. Sucesso!

    Aliciene

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  2. Muito bem colocado! Vivencio essa distócia quase todos os dias no consultório. A maior parte da consulta é ajustar a imagem do espelho e aí traçar um plano na real anatomia. Por vezes não consigo... acabo encaminhando o paciente a procurar ajuda psicológica, o que também nem sempre consigo. Acho que é aí que mora a ética pois é muito fácil operar o espelho! Parabéns pelos textos! Bia Brito

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  3. Oi, Bia! Muito obrigado pelos comentários e parabéns pela sua atitude e ética profissional.
    Não me parece comum, entre os profissionais que trabalham em áreas que podem promover intervenções sobre a estética corporal, manter-se imune aos pleitos onde o benefício não justifica o risco, ou mesmo o investimento.
    Acho sua postura muito correta e digna de respeito. A parte ruim dessa história é que qualquer "ajuste da imagem no espelho" conforme suas palavras, será sempre parcial e temporário, porque a dissociação é estrutural.
    A boa notícia é que a psicanálise trabalha sobre esse campo, e embora não elimine - como nenhuma outra prática - as distorções, pode criar outros recursos para as manifestações subjetivas, e ampliar seu leque de possibilidades, mesmo as sintomáticas. O jugo da imagem é diluído naquele que vivencia a experiência analítica. Assunto para mais textos....
    Grande abraço!

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  4. Meu caro Alexandre, uma contemporânea do nosso curso de formação me supreendeu com a seguinte observação acerca dos escritos de uma professora que nos "deu aula": nossa, Enival, os escritos dela parecem poesia. Quando o texto "parece poesia", chegou o amadurecimento. E daqui emendo, com o peito do pé, uma observaçãozinha indigna e vagabunda: Esse brincar com as palavras é essa fugacidade que você me noticia logo acima. E esse ajuste torna-se impossível na medida que o cronos jamais será compatível com o "tempo" posto do inconsciente. Na análise, claro, isso pode ser observado, mas, antes, também, nas poesias e no brincar com as palavras, onde o erro de paralaxe se disolve de maneira efêmera e a imagem se ajusta no espelho temporariamente.

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    1. Caro Enival:
      Embora eu já tenha respondido ao seu comentário por e-mail, vale registrar aqui, no que eu proponho como um pequeno "foro de debate" sobre a psicanálise, meu agradecimento pelas suas colocações.
      Seria redundante agradecer a costumeira gentileza a mim dirigida, até porque não se trata de um exercício "egóico", mas efetivamente de um campo de discussão. E aí cabe o agradecimento, porque suas alegorias com as palavras, e sua capacidade de abordar o campo da fala e da escrita com seus recursos atemporais, trazendo a mensagem sobre o impossível registro de tempo no campo do insconsciente, isso é digno de menção, de agradecimento pela felicidade da expressão, e pelo alimento para futuros ensaios.
      Tentarei, quando o "santo baixar" ou o inconsciente assumir as teclas, deixar registros mais elaborados sobre esse tema.
      Grande abraço,

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  5. Bianca Vasconcellos Gonçalves6 de fevereiro de 2012 às 16:19

    Parabéns Alexandre! Sou uma leiga em psicanálise, não entendo muitas coisas, rsrs..., mas você escreve tão bem que mesmo assim o texto torna-se gostoso de ler. Fiquei muito feliz em ver o seu reconhecimento ao meu trabalho, isso realmente é o que vale a pena na minha profissão. Obrigada! Parabéns pelo seu comprometimento com o tratamento, fundamental para o sucesso. Abraço.

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    1. Que bom, Bianca! Fico muito feliz com o seu comentário, porque ele tem muito sentido com a proposta do blog, que é uma tentativa de levar algo da reflexão ou do pensamento psicanalítico para o público leigo.
      Se você achou o texto agradável, e possível de algum proveito, acho que consegui atingir - pelo menos em parte - o meu objetivo.
      Falar sobre psicanálise não é uma tarefa simples e, como em todas as disciplinas, a gente se vê preso nas armadilhas das tramas conceituais. Tentar superar essas barreiras sem perder o conteúdo é um desafio, e me proponho a seguir tentanto.
      Obrigado pela sua atenção, pelo comentário e pelo retorno! Valeu!

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