Nesse final de semana prolongado por um feriado (que consegui "emendar") na terça-feira, fui com minha esposa para a casa dela na praia, algo que não fazíamos há vários meses.
Nesse período mais recente, tenho retomado, gradativamente, uma certa rotina de atividades físicas, que tinha sido interrompida por mais de um ano em função de uma hérnia de disco, que estava me deixando enlouquecido de tanta e tão permanente dor.
Recentemente, há coisa de dois ou três meses, recebi a recomendação de uma fisioterapeuta, e comecei um trabalho de recuperação com ela. Tenho que dizer que, desde a primeira consulta, ela falava com tranquilidade em eliminar a dor: para quem estava com dor 24 horas por dia, 7 dias por semana, por um período que já somava uns 16 meses, aquilo era música da melhor qualidade para os meus ouvidos que, esperançosos, queriam acreditar naquela simplicidade, na segurança que ela demonstrava nas palavras e na avaliação física, conforme ia "dissecando" meu problema para definir a forma de trabalhar que iríamos adotar. Depois de duas sessões, eu já sentia algum alívio, e em menos de dois meses chegou um dia em que eu me vi completamente sem dor! Parecia um milagre! Eu nem queria contar pra ninguém, com medo de que o "encanto" passasse.... mas não passou! E, orientado sobre a postura, mantendo a disciplina dos exercícios e duas sessões semanais de fisioterapia, tenho me lançado a velhos desafios, voltando à esteira, à natação, duas horas semanais de musculação, uma aula de pilates - que também contribui muito para a manutenção da postura e fortalecimento da musculatura que equilibra a base da coluna, onde está localizada a minha hérnia.
Você que me acompanhou até aqui deve estar pensando: que relação essa história toda tem, afinal, com a psicanálise que, até onde consta, é o tema desse blog?
Pois bem, voltemos à praia: da última vez em que eu estive lá, eu estava sob o efeito de corticóides, o que me fazia parecer mais inchado do que um pacu! - não pensem que a psicanálise se fará por rimas.... Além de inchado, eu estava por mais de um ano sem praticar nenhuma atividade física ou esportiva, portanto meu corpo estava flácido, com uma camada considerável de gordura bem espalhada por meus 190 cm de altura, conferindo uma forma - ou falta dela - que eu acho que nunca tive em meus 45 anos de vida (destaque para o ACHO, por motivos que se seguirão em minha explicação). E a psicanálise?
A psicanálise chegou no exato momento em que entrei na casa da praia, tirei a camisa - estava calor, apesar da chuva - e fui ao banheiro. Quando acendi a luz e olhei para o espelho vi uma outra pessoa, que não era quem eu tinha visto da última vez em que fui à praia. O que tinha se passado com aquela figura, agora tão diferente?
Vejam bem que estamos falando de respostas óbvias: um ano e pouco de total sedentarismo seguidos de um cuidado (ainda não mencionado) com a minha dieta e com a retomada de uma rotina de atividades físicas / esportivas. Qualquer um sabe que isso deve promover uma mudança no percentual de gordura corporal, na quantidade de "massa magra", etc. Mas o relevante, nesse caso, é que eu tinha me visto TODOS OS DIAS no espelho da minha casa durante esse processo, e não seria capaz de apontar qualquer mudança na minha aparência física! Contudo, a imagem daquele cara, fixada na minha memória, naquele espelho, há uns 4 meses e muitas horas de esforço antes eram incrivelmente contrastantes com o que eu podia observar naquele exato momento. E o espelho de casa, que horas antes me mostrara EXATAMENTE a mesma imagem que eu via ali, mas havia mostrado todas as etapas do processo, NÃO ME PROPORCIONAVA O CONTRASTE!
O ponto em questão é que, como sabemos, temos a nosso respeito, uma imagem EXTERNA, que começa no "O Estádio do Espelho como formador da função do eu" (Lacan, J, "Escritos"), e nos acompanha sempre como uma imagem que associamos a nós, mas que DESCONHECEMOS senão como UMA PROJEÇÃO daquilo que somos enquanto corpo físico.
A mudança de espelho produziu o contraste porque lá na praia, a última vez em que eu havia visto O QUE CHAMO DE MEU CORPO, ele tinha outra forma, outra distribuição de massas. Eu não poderia notar isso no espelho em que me vejo diariamente, o que confirma o quanto a imagem que carregamos de nós mesmos é parcial e externa e sempre equivocada, fragmentada. Ao chegar a outro lugar, onde eu havia visto meu corpo em outro momento, não conseguia reconhecer aquela imagem, e me espantei com uma forma muito diferente da anterior, QUE NÃO HAVIA SIDO AFETADA, DE FORMA ALGUMA, pelas imagens diárias que tenho de mim mesmo em minha casa!
Essa experiência impressionante é tão real quanto o nosso desconhecimento sobre nosso corpo, que permanece como uma "imago" cristalizada de um ser que vimos projetado em algum tipo de espelho, em algum momento. E as mudanças pelas quais esse corpo passa NÃO TÊM UM REGISTRO PSÍQUICO!
E não estou falando nada estranho, quando pensamos nas pessoas que perguntam: "que idade você acha que eu tenho?", sentindo-se jovens por causa de um cabelo pintado quando sua pele parece um maracujá!, ou quando vemos um homem muito gordo apontando para outro e dizendo: "minha barriga não é daquele tamanho, é?" e nós vemos que, na verdade, é muito maior!
Fica muito mais fácil entender as situações mais extremas dos distúrbios de auto-imagem, as anorexias, e outras distorções dos tempos modernos, como as chamadas "vigorexias" e outras formas de reação a uma imagem distorcida de si próprio. Afinal, NINGUÉM TEM UM REGISTRO PSÍQUICO FIDEDIGNO DE SEU PRÓPRIO CORPO, ou ninguém sabe exatamente como é.
Voltaremos a esse assunto!
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
E a tal psicanálise?
Uma das perguntas mais freqüentes que se faz a um psicanalista, e cuja resposta não é exatamente simples, refere-se ao “o que”. Ou seja: o que é a psicanálise?
Vou tentar responder isso de uma forma menos técnica, porque ela (a visão estritamente técnica) acaba redundando em mais dúvidas para quem é leigo no assunto, quando uma das maiores conquistas da psicanálise, senão SUA MAIOR E MAIS RELEVANTE CONQUISTA, é dar um lugar para o sofrimento humano. Portanto, já começando a simplificar, a análise é uma forma de terapia, que visa o alívio do sofrimento daqueles que procuram esse caminho, ou essa abordagem terapêutica.
As coisas não podem permanecer tão simples, nesse ponto, e tenho que dizer que a análise tem, em comum com outras abordagens terapêuticas, apenas a “intenção” de promover uma forma de “cura” das situações de sofrimento. As coincidências, contudo, param por aí, exatamente quando começam a ser necessárias algumas explicações, ou antes, esclarecimentos, porque não estamos falando de algo misterioso ou inacessível, mas sim de uma visão singular e muito própria da abordagem analítica. Trocando em miúdos, a análise enxerga e trata como sintomas o que outras disciplinas costumam abordar como “o problema em si”. Quando a psiquiatria, por exemplo, classifica e trata um "quadro depressivo", a análise busca desvelar as origens desse sofrimento, “analisando” seus caminhos e pesquisando suas dimensões não explícitas.
Podemos exemplificar esse tipo de situação de uma maneira simples: “suponhamos uma pessoa que tenha um animal de estimação. Ela tem grande amor por esse animal (aqueles que têm seus “pets” sabem bem do que estou falando!). Elas criam muitos vínculos com seus “amigos de outras espécies”. Vamos supor um caso específico em que esse vínculo afetivo possa estar “encobrindo” ou “tirando do primeiro plano” uma outra falta: uma ausência familiar, uma infância com poucas coisas boas a lembrar, a distância ou a falta de uma pessoa amada. Sabemos que um dos problemas das relações com nossos amigos “peludos” é que eles, geralmente, vivem muito menos do que nós. E um dia, seguindo a ordem natural das coisas, perdemos nosso amigo do peito! A pergunta que cabe aqui, analiticamente falando (lembrem-se de que estamos falando de uma situação simples, mas absolutamente possível) é: “Quantas dores choramos ao sofrer pela perda desse amigo?” –
A resposta mais objetiva é: tantas quantos caminhos nossos afetos tenham percorrido e simbolizado nesse amigo que se foi. E quantos apelos esse amor que nos foi dedicado pode evocar? A constância, a lealdade, a fidelidade, o “para sempre”, o incondicional. Quantos vazios e quantas carências podem estar inseridos nessa perda e nesse “amor”? E quanto se perde quando ele se vai?
Esse tipo de pergunta não tem resposta universal, nem única, nem visível ou direta. Pessoas são seres únicos, com histórias únicas, com amores únicos, com reações que nos diferenciam, que nos tornam singulares e distintos diante do mundo, dos fatos, das “coisas da vida”. E as produções e “sintomas” criados pelo curso singular e próprio, nesse rio encravado nas almas de cada indivíduo é a parte do mistério, das dores e dos sofrimentos que a análise procura desvelar.
O curso de uma abordagem analítica é o de perseguir o que não está à vista, o que não foi dito, o que não foi possível de perceber ou entender. Os sintomas são a conseqüência que se produz quando as emoções não ganham o acesso à ação ou à palavra, e aquilo que “desaparece” quando se promove esse encontro com o que foi preciso esquecer.
Quem já passou por uma análise pode atestar que, em certo sentido, o caminho de uma análise é auto-explicativo. Cada indivíduo que atravessa o curso de uma análise pessoal acaba por entender muito da sua própria dinâmica psíquica, e ganha a condição de se perceber em seus desejos, sofrimentos e sintomas a partir de uma nova perspectiva.
Esse é um convite que se pode fazer a quem passa por uma situação difícil, que se sente sofrendo e quer “se livrar” desse sofrimento. A análise é uma via real, uma oferta de escuta do singular e de apropriação de um espaço que foi perdido durante a jornada, mas que pede passagem na forma de sintomas e sofrimento.
Longe de esgotar esse assunto, que como eu comecei dizendo, está longe de ser simples, gostaria de inaugurá-lo, como um convite a uma segunda olhada, a uma atenção especial e uma consideração muito importante àqueles que estiverem em busca de um lugar para sua dor.
Vou tentar responder isso de uma forma menos técnica, porque ela (a visão estritamente técnica) acaba redundando em mais dúvidas para quem é leigo no assunto, quando uma das maiores conquistas da psicanálise, senão SUA MAIOR E MAIS RELEVANTE CONQUISTA, é dar um lugar para o sofrimento humano. Portanto, já começando a simplificar, a análise é uma forma de terapia, que visa o alívio do sofrimento daqueles que procuram esse caminho, ou essa abordagem terapêutica.
As coisas não podem permanecer tão simples, nesse ponto, e tenho que dizer que a análise tem, em comum com outras abordagens terapêuticas, apenas a “intenção” de promover uma forma de “cura” das situações de sofrimento. As coincidências, contudo, param por aí, exatamente quando começam a ser necessárias algumas explicações, ou antes, esclarecimentos, porque não estamos falando de algo misterioso ou inacessível, mas sim de uma visão singular e muito própria da abordagem analítica. Trocando em miúdos, a análise enxerga e trata como sintomas o que outras disciplinas costumam abordar como “o problema em si”. Quando a psiquiatria, por exemplo, classifica e trata um "quadro depressivo", a análise busca desvelar as origens desse sofrimento, “analisando” seus caminhos e pesquisando suas dimensões não explícitas.
Podemos exemplificar esse tipo de situação de uma maneira simples: “suponhamos uma pessoa que tenha um animal de estimação. Ela tem grande amor por esse animal (aqueles que têm seus “pets” sabem bem do que estou falando!). Elas criam muitos vínculos com seus “amigos de outras espécies”. Vamos supor um caso específico em que esse vínculo afetivo possa estar “encobrindo” ou “tirando do primeiro plano” uma outra falta: uma ausência familiar, uma infância com poucas coisas boas a lembrar, a distância ou a falta de uma pessoa amada. Sabemos que um dos problemas das relações com nossos amigos “peludos” é que eles, geralmente, vivem muito menos do que nós. E um dia, seguindo a ordem natural das coisas, perdemos nosso amigo do peito! A pergunta que cabe aqui, analiticamente falando (lembrem-se de que estamos falando de uma situação simples, mas absolutamente possível) é: “Quantas dores choramos ao sofrer pela perda desse amigo?” –
A resposta mais objetiva é: tantas quantos caminhos nossos afetos tenham percorrido e simbolizado nesse amigo que se foi. E quantos apelos esse amor que nos foi dedicado pode evocar? A constância, a lealdade, a fidelidade, o “para sempre”, o incondicional. Quantos vazios e quantas carências podem estar inseridos nessa perda e nesse “amor”? E quanto se perde quando ele se vai?
Esse tipo de pergunta não tem resposta universal, nem única, nem visível ou direta. Pessoas são seres únicos, com histórias únicas, com amores únicos, com reações que nos diferenciam, que nos tornam singulares e distintos diante do mundo, dos fatos, das “coisas da vida”. E as produções e “sintomas” criados pelo curso singular e próprio, nesse rio encravado nas almas de cada indivíduo é a parte do mistério, das dores e dos sofrimentos que a análise procura desvelar.
O curso de uma abordagem analítica é o de perseguir o que não está à vista, o que não foi dito, o que não foi possível de perceber ou entender. Os sintomas são a conseqüência que se produz quando as emoções não ganham o acesso à ação ou à palavra, e aquilo que “desaparece” quando se promove esse encontro com o que foi preciso esquecer.
Quem já passou por uma análise pode atestar que, em certo sentido, o caminho de uma análise é auto-explicativo. Cada indivíduo que atravessa o curso de uma análise pessoal acaba por entender muito da sua própria dinâmica psíquica, e ganha a condição de se perceber em seus desejos, sofrimentos e sintomas a partir de uma nova perspectiva.
Esse é um convite que se pode fazer a quem passa por uma situação difícil, que se sente sofrendo e quer “se livrar” desse sofrimento. A análise é uma via real, uma oferta de escuta do singular e de apropriação de um espaço que foi perdido durante a jornada, mas que pede passagem na forma de sintomas e sofrimento.
Longe de esgotar esse assunto, que como eu comecei dizendo, está longe de ser simples, gostaria de inaugurá-lo, como um convite a uma segunda olhada, a uma atenção especial e uma consideração muito importante àqueles que estiverem em busca de um lugar para sua dor.
Viver
Em 1917 Freud escreve um texto sob o título de “luto e melancolia”. Descreve o
processo de luto como a perda de um objeto “investido” de afeto. A falta do
objeto deixa esse afeto “solto”, ou sem ligação, sem possibilidade de ser
vivenciado e descarregado psiquicamente: por ações físicas, pelo contato, pela
realização do amor.
O luto é algo recorrente na vida, e pode se relacionar a pessoas, a momentos, a épocas das nossas vidas, a amizades, a amores. Em todos os casos, o sujeito que perde seu objeto de amor, tem que construir a possibilidade de reinvestir esse afeto cujo laço objetal foi rompido. Esse investimento
acontece, em um primeiro momento, com o retorno desse afeto ao próprio sujeito, com a capacidade de se reinvestir desse amor, de voltar para si esse afeto cujo elo de ligação com a sua realização foi desfeito. A partir desse retorno “narcísico” do afeto cujo objeto se perdeu, é possível refazer ou construir ligações com outros objetos, com outras pessoas, outros amores, outros amigos, outros
momentos.
A idéia que me ocorre nesse texto é uma reflexão sobre essas infindáveis perdas, que vivenciamos diariamente e que, vez ou outra, nos fazem chorar compulsivamente ao escutar uma determinada música, assistir a um romance “água com açúcar”, ou ao ler certa passagem da vida de um personagem, real ou fictício, de um livro sobre o qual nos debruçamos.
As perdas são reparadas, os afetos são recuperados, reinvestidos, mas as marcas fazem parte de nós, como traços permanentes em nossas histórias e em nossa maneira de nos relacionarmos com o mundo. Viver uma perda é sofrer de uma ferida. Recuperar-se dela, é ver o tecido se refazendo, a inflamação diminuindo, saber que ela vai cessar de purgar e, eventualmente, sarar por completo. Mas é também ver nascer em seu lugar uma cicatriz, tão funda e visível quanto importante e séria foi a ferida.
Vivemos um vida marcados por nossas conquistas, por nossos amores, por nossas amizades, por nossas famílias. Somos cercados, criados, embalados e construídos em nossas relações com os outros, seja na sua experiência e felicidade, ou nas suas perdas e lutos.
Cicatrizes não doem, não sangram, não purgam. Mas, vez ou outra, nos fazem lembrar da beleza que as precedeu e, nesses momentos, entramos em contato com a magia e a dor, com a poesia e o fantasma, com a vida e com a falta dela.
É nesse pêndulo que nossa vida toma seu rumo. São nesses encontros e desencontros que nascemos, crescemos, somos felizes, sofremos, vivemos e morremos. São essas dores de feridas que não podemos tratar, porque já se foram com o tempo, embora suas lembranças e cicatrizes permaneçam por toda a nossa existência, que nos fazem temer o abismo, não pelo risco de cair, mas pelo desejo e de pular.
Esse é o ciclo da vida, espiral de experiências vividas e revividas, sonhadas, sentidas, relembradas. A vida não pode ser experimentada sem que seja construído um enorme castelo para abrigar o saldo inevitável e indelével de nossas saudades.
O equilibrista de verdade vai ter que encontrar seu caminho em uma corda bamba, passos estreitos e instáveis que oscilam entre o prazer e a dor. Alguém falou que seria fácil?
O luto é algo recorrente na vida, e pode se relacionar a pessoas, a momentos, a épocas das nossas vidas, a amizades, a amores. Em todos os casos, o sujeito que perde seu objeto de amor, tem que construir a possibilidade de reinvestir esse afeto cujo laço objetal foi rompido. Esse investimento
acontece, em um primeiro momento, com o retorno desse afeto ao próprio sujeito, com a capacidade de se reinvestir desse amor, de voltar para si esse afeto cujo elo de ligação com a sua realização foi desfeito. A partir desse retorno “narcísico” do afeto cujo objeto se perdeu, é possível refazer ou construir ligações com outros objetos, com outras pessoas, outros amores, outros amigos, outros
momentos.
A idéia que me ocorre nesse texto é uma reflexão sobre essas infindáveis perdas, que vivenciamos diariamente e que, vez ou outra, nos fazem chorar compulsivamente ao escutar uma determinada música, assistir a um romance “água com açúcar”, ou ao ler certa passagem da vida de um personagem, real ou fictício, de um livro sobre o qual nos debruçamos.
As perdas são reparadas, os afetos são recuperados, reinvestidos, mas as marcas fazem parte de nós, como traços permanentes em nossas histórias e em nossa maneira de nos relacionarmos com o mundo. Viver uma perda é sofrer de uma ferida. Recuperar-se dela, é ver o tecido se refazendo, a inflamação diminuindo, saber que ela vai cessar de purgar e, eventualmente, sarar por completo. Mas é também ver nascer em seu lugar uma cicatriz, tão funda e visível quanto importante e séria foi a ferida.
Vivemos um vida marcados por nossas conquistas, por nossos amores, por nossas amizades, por nossas famílias. Somos cercados, criados, embalados e construídos em nossas relações com os outros, seja na sua experiência e felicidade, ou nas suas perdas e lutos.
Cicatrizes não doem, não sangram, não purgam. Mas, vez ou outra, nos fazem lembrar da beleza que as precedeu e, nesses momentos, entramos em contato com a magia e a dor, com a poesia e o fantasma, com a vida e com a falta dela.
É nesse pêndulo que nossa vida toma seu rumo. São nesses encontros e desencontros que nascemos, crescemos, somos felizes, sofremos, vivemos e morremos. São essas dores de feridas que não podemos tratar, porque já se foram com o tempo, embora suas lembranças e cicatrizes permaneçam por toda a nossa existência, que nos fazem temer o abismo, não pelo risco de cair, mas pelo desejo e de pular.
Esse é o ciclo da vida, espiral de experiências vividas e revividas, sonhadas, sentidas, relembradas. A vida não pode ser experimentada sem que seja construído um enorme castelo para abrigar o saldo inevitável e indelével de nossas saudades.
O equilibrista de verdade vai ter que encontrar seu caminho em uma corda bamba, passos estreitos e instáveis que oscilam entre o prazer e a dor. Alguém falou que seria fácil?
Assinar:
Comentários (Atom)