Em 1917 Freud escreve um texto sob o título de “luto e melancolia”. Descreve o
processo de luto como a perda de um objeto “investido” de afeto. A falta do
objeto deixa esse afeto “solto”, ou sem ligação, sem possibilidade de ser
vivenciado e descarregado psiquicamente: por ações físicas, pelo contato, pela
realização do amor.
O luto é algo recorrente na vida, e pode se
relacionar a pessoas, a momentos, a épocas das nossas vidas, a amizades, a
amores. Em todos os casos, o sujeito que perde seu objeto de amor, tem que
construir a possibilidade de reinvestir esse afeto cujo laço objetal foi
rompido. Esse investimento
acontece, em um primeiro momento, com o retorno
desse afeto ao próprio sujeito, com a capacidade de se reinvestir desse amor, de
voltar para si esse afeto cujo elo de ligação com a sua realização foi desfeito.
A partir desse retorno “narcísico” do afeto cujo objeto se perdeu, é possível
refazer ou construir ligações com outros objetos, com outras pessoas, outros
amores, outros amigos, outros
momentos.
A idéia que me ocorre nesse
texto é uma reflexão sobre essas infindáveis perdas, que vivenciamos diariamente
e que, vez ou outra, nos fazem chorar compulsivamente ao escutar uma determinada
música, assistir a um romance “água com açúcar”, ou ao ler certa passagem da
vida de um personagem, real ou fictício, de um livro sobre o qual nos
debruçamos.
As perdas são reparadas, os afetos são recuperados,
reinvestidos, mas as marcas fazem parte de nós, como traços permanentes em
nossas histórias e em nossa maneira de nos relacionarmos com o mundo. Viver uma
perda é sofrer de uma ferida. Recuperar-se dela, é ver o tecido se refazendo, a
inflamação diminuindo, saber que ela vai cessar de purgar e, eventualmente,
sarar por completo. Mas é também ver nascer em seu lugar uma cicatriz, tão funda
e visível quanto importante e séria foi a ferida.
Vivemos um vida
marcados por nossas conquistas, por nossos amores, por nossas amizades, por nossas
famílias. Somos cercados, criados, embalados e construídos em nossas relações com
os outros, seja na sua experiência e felicidade, ou nas suas perdas e
lutos.
Cicatrizes não doem, não sangram, não purgam. Mas, vez ou outra,
nos fazem lembrar da beleza que as precedeu e, nesses momentos, entramos em
contato com a magia e a dor, com a poesia e o fantasma, com a vida e com a falta
dela.
É nesse pêndulo que nossa vida toma seu rumo. São nesses encontros
e desencontros que nascemos, crescemos, somos felizes, sofremos, vivemos e
morremos. São essas dores de feridas que não podemos tratar, porque já se foram
com o tempo, embora suas lembranças e cicatrizes permaneçam por toda a nossa
existência, que nos fazem temer o abismo, não pelo risco de cair, mas pelo
desejo e de pular.
Esse é o ciclo da vida, espiral de experiências
vividas e revividas, sonhadas, sentidas, relembradas. A vida não pode ser
experimentada sem que seja construído um enorme castelo para abrigar o saldo
inevitável e indelével de nossas saudades.
O equilibrista de verdade vai
ter que encontrar seu caminho em uma corda bamba, passos estreitos e instáveis
que oscilam entre o prazer e a dor. Alguém falou que seria fácil?
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