Volto a um tema já abordado
anteriormente para, mais uma vez, tentar ampliar um pouco a visão e nossas
reflexões sobre o assunto.
Todos já ouvimos – e falamos –
que a única certeza que se tem na vida é a morte. Vou caminhar por uma “transgressão”
a esse pensamento que, em verdade, é um outo caminho, uma vereda da finitude costumeiramente esquecida nessa frase que
acabei de citar – ou repetir.
Temos duas certezas básicas na
vida, em extremos opostos e caráter similar: o nascimento e a morte. Acho que
ninguém vai questionar o fato de que nascimento e morte estão em extremos
opostos, mesmo quando eles venham, tragicamente, a acontecer em momentos
temporalmente quase idênticos. Não tenho a mesma certeza quando menciono a
semelhança no seu caráter, e aí começa essa vereda de pensamento sobre a qual
resolvi me debruçar nesse texto.
Suspendo temporariamente as
palavras nascimento e morte para falar da vida. Podemos pensar na vida sob uma
infinidade de perspectivas, mas uma delas é uma visão irredutível, o “mínimo
divisor comum” a ligar e dar sentido a essa palavra: a vida é o lapso de tempo
entre dois acontecimentos que localizam como tal todos os seres vivos, o nascimento
e a morte. Como a idéia básica é refletir sobre o homem, vou seguir pensando
somente no “ser de fala” que, como já mencionei em textos passados, carrega o prêmio e a sina de saber-se; de
ter noção da própria existência, seu nascimento e sua própria morte.Ambos – nascimento e morte – dão ao homem esse espaço temporal de suas experiências enquanto tal, e delimitam um campo de crescimento, de aprendizagem de “entrada na cultura” (ou na fala), de usufruto, de prazer, dor, angústia, e dúvidas. Quando falo de dúvidas, quero restringir esses questionamentos, pela direção que proponho para esse pequeno ensaio, àquelas que já mencionei como dúvidas “essenciais” do ser de fala: de onde viemos, quem somos, por que, e para onde vamos. A essas questões estão ligados todos os pensamentos sobre tempo e espaço, sobre finitude e infinito, onde tempo e espaço se opõe à fragmentação temporal de um espaço vital único e restrito, e oferecem a experiência do vazio de ser, como precedentes e permanentes à nossa experiência enquanto humanos.
Quero caminhar ainda um passo adiante para dizer que, em essência, nascimento e morte evocam, de perspectivas diferentes, as mesmas angústias, que são aquelas do escuro absoluto, do total silêncio, da ausência de nós mesmos. O vazio em sua definição interna mais absoluta!
Para que não caminhe mais com a
idéia como fruto de uma reflexão pessoal ou isolada, vou recorrer, brevemente,
às disciplinas (com uma licença para o que venho a abarcar sob essa
nomenclatura) que, desde os primórdios da humanidade, vêm se propondo a
enfrentar, cada uma à sua forma, essas questões e suas implicações: a religião,
a filosofia, as ciências físicas e astronomia e a psicanálise.
Peço desculpas antecipadamente
para poder apresentar uma visão simplista das disciplinas que não a
psicanálise, visto ser esta a minha via de pensamento e visão de mundo, evitando
os erros que eu, certamente incorreria se tentasse me alongar nos temas sobre
os quais meus conhecimentos claudicam.A religião, como já tive a oportunidade de mencionar, dá suas explicações pela via da crença e dos dogmas. É sempre bom pensar no significado da palavra, pois ajuda a entender sua gênese. Religião deriva da palavra latina religare, que significa, literalmente, religar. Trata-se de uma crença na possibilidade de refazer a ligação do homem com a divindade, da qual ele seria obra – sua principal obra, segundo as religiões monoteístas. Evito entrar no assunto de definição de religião, para não desviar demais o assunto, mas há quem venha me criticar dizendo que religião, por definição, são as monoteístas e que, portanto, eu estaria redundado ao dizer religiões monoteístas. Peço desculpas pela imprecisão, mas o faço em nome do pensamento que tento promover.
A filosofia tenta explicar, pelos meios e caminhos que os grandes pensadores percorreram – e ainda percorrem, para refletir sobre o mundo, a vida, suas determinantes, suas origens e seus destinos, os mistérios da existência.
A astronomia abandona os limites da existência individual, e vai buscar a origem do universo como o conhecemos (ou ainda nem conhecemos), desde a sua formação, até seus possíveis destinos – a extinção ou um retrocesso do processo de expansão do universo, sua contração, originando um novo “Big Bang”.
E a psicanálise? A psicanálise não explica: escuta! (*) Ela dá lugar à dor de existir, traduzida em palavras que reproduzem as imagens pictóricas que assombram o inconsciente e, à imagem de um vulcão, explodem em inibição, sintomas, atos e angústia. A psicanálise não responde a essas perguntas (ou feridas) mas, como a todas as questões da formação subjetiva de cada indivíduo em análise, permite o contato com essa cadeia de elementos que conformam, configuram um sujeito.
E onde ficaram nascimento e morte? Ambos expõem, segundo quero propor, a dor de saber-se finito.... nada antes, nada depois! É claro que as tentativas de colocar-nos, subjetivamente, integralmente, nesses espaços escuros de desconhecimento e dúvidas, trazem respostas sobre as quais não estou lançando dúvidas. Ou seja, não é minha intenção duvidar de nenhuma explicação, religião ou respostas para os momentos de nossa sentida (ou não sentida) ausência, mas dizer que o que vem antes da vida é tão angustiante quanto o que vem depois dela.
Eu não poderia terminar esse ensaio sem elucidar uma questão que diferencia, de forma muito importante, os eventos aqui abordados, do nascimento e morte. Eles são separados em valor, angústia e medo pela direção do tempo, vento que sopra de um só lado, em uma só direção. Embora o abismo do não ser preceda o nascimento tanto quanto ele vem a suceder a morte, a vida caminha em um só sentido, o que nos faz temer, muito mais frontalmente a morte do que o nascimento.
Contudo, e apesar das alegrias e celebrações que marcam os rituais do surgimento da vida, o evento do nascimento carrega, em sua essência, o mesmo mistério e angústia que acompanham o temor do que vem depois, ou seja, do que nos espera e, antes ainda, se algo nos espera, após a nossa morte.
(*) esse pensamento, exatamente nesse contexto de comparação das disciplinas, não é meu, mas foi expresso em um comentário sobre um texto desse blog pela minha amiga, supervisora, e "mentora" no mundo do pensamento psicanalítico, Karin de Paula.
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